A medicina do capital e o consumismo tecnológico da saúde

Há algumas semanas, o New York Times estampou a notícia que a Nestlé anunciou a realização de um grande negócio, que vem a mudar completamente o perfil de seus produtos: a aquisição de uma rede especializada em exames médicos para diagnóstico de câncer e de outras doenças crônicas do aparelho gastrointestinal, os laboratórios Prometheus dos Estados Unidos. Não se trata de um lance isolado, mas de uma estratégia pensada com o propósito de gradualmente posicionar a Nestlé como uma empresa-líder no setor privado de exames diagnósticos.

Esse fato vem a comprovar que a verdadeira medicina do capital não é aquela que atua na prestação de serviços de saúde. O hospital atualmente está longe de ser um tipo de empresa que ofereça alta rentabilidade ao capital. Há várias razões para isto, mas uma delas é que, nos Estados Unidos, os salários e os benefícios pagos aos médicos são muito elevados. Os ramos mais promissores de rentabilidade são aqueles que combinam alta tecnologia com mão de obra especializada, mas de custo menos elevado. É o caso dos laboratórios de exames complementares e de investigação genética, bem como as clínicas de tratamento com energia nuclear.

Em que se baseiam essas iniciativas empresariais especialmente lucrativas? Em duas crenças amplamente difundidas nas sociedades contemporâneas: 1) que precisamos de tecnologias que detectem ameaças à saúde nos seus estágios incipientes, se possível no âmbito genético; 2) que precisamos usar qualquer forma de tecnologia que apresente indícios de ser eficaz contra certas enfermidades fatais comuns.

Poucos enxergam aqui os sinais de um consumismo da saúde. Mas, sem dúvida, é o consumismo da saúde que dá sustentação a esses empreendimentos capitalistas. Se já temos à mão tudo o que representa a última palavra em matéria de comunicação computacional, como os tabletes e o iphones, por que abrir mão de tecnologias que possam salvar nossas vidas e de nossos entes queridos?

Esta é caracteristicamente uma fala de consumidor. O problema é que o consumidor fala a mesma língua em todo lugar, nos Estados Unidos e no Brasil. Mas há uma diferença: no Brasil, o nível de renda não permite que as pessoas possam pagar diretamente por essas sofisticadas tecnologias da medicina laboratorial. Aqui é onde entra em cena a reivindicação do direito à saúde, quando este se confunde com o direito do consumidor. Já vem acontecendo que a última invenção farmacológica, o “medicamento de ponta”, seja reivindicada por meio de processo judicial ao SUS. Nada impede que, no andar da carruagem, tenhamos demandas judiciais para acesso a exames sofisticados prestados pela medicina do capital.

Ou será que podemos pensar de maneira mais otimista? É possível que este cenário de consumismo da saúde encontre limites numa mudança radical de nosso sistema de saúde? Esta questão não pode ser respondida por ora, porque simplesmente não sabemos para onde vai o sistema capitalista no Brasil e muito menos se teremos no país um Estado de Bem-Estar, bem regulado e efetivo.

De qualquer modo, é conveniente que os militantes do movimento sanitário entendam o que está se passando em escala mundial com a nova medicina do capital. A evolução empresarial da Nestlé e dos seus produtos pode ser tomada como um indicador claríssimo do que está por acontecer. Inicialmente, inimiga da alimentação materna, a empresa passou, posteriormente, a produzir alimentos rotulados como naturais e saudáveis. E agora se prepara para ajudar a combater o câncer e outras doenças mediante uma grande rede de diagnóstico de alta precisão, mas que representa apenas o ponto de partida de prometidos grandes investimentos no campo da saúde.

A trajetória da Nestlé sinaliza que está havendo em todo o mundo grande movimentação dos capitais em direção ao campo da saúde. Por que isto acontece? Porque graças ao consumismo da saúde, em suas infinitas formas – que podem ser legítimas ou enganosas ou espúrias – a saúde tornou-se um bem mais que desejado; é um bem adorado. As sociedades contemporâneas dedicam uma espécie de culto à saúde como se fosse um novo deus, uma divindade antropocêntrica. Neste sentido, a demanda por saúde – diagnósticos e tratamentos – é quase ilimitada.

Por outro lado, no contexto econômico do término do período da guerra fria, em que os conflitos bélicos emergem apenas focalizados, a indústria da saúde é cada vez mais um substituto politicamente adequado e popularmente endossado da indústria da guerra. Neste novo contexto econômico e cultural, o slogan da medicina do capital talvez possa ser este: faça saúde, não faça guerra. Mas podemos perguntar: que saúde é esta? Há muitas maneiras de questionar essa tendência, buscando alternativas diante da medicina do capital. Mas não há dúvidas que a medicina do capital, à la Nestlé, com seus serviços tecnológicos especiais de diagnóstico, surge como uma resposta natural do mercado, que sempre busca satisfazer qualquer proeminente tendência de consumo da sociedade.